Podemos ser livres?

Para tentar responder a esta pergunta é preciso antes significar a palavra liberdade – liberdade que é uma palavra grande, tão grande, que cabe dentro dela muitas interpretações, já tendo sido debatida por diversos ângulos através do olhar de filósofos e historiadores. Temos com isso, que a liberdade pode ser refletida de muitas formas: pelo âmbito cultural, social, da legislação, das considerações pessoais e da linguagem.

No entanto, apesar do caráter múltiplo de reflexão que a liberdade carrega em si, parece possível encontrar uma voz uníssona quando questionamos ao outro: “para você, o que é ser livre? ” No mais das vezes, como resposta, ouvimos frases como “ser livre é não precisar seguir regras”, “ser livre é poder ir e vir quando e como quiser”, “liberdade é poder fazer o que quero, sem prestar contas a ninguém”.

Imbuída intrinsecamente nessas respostas, vemos a autonomia da vontade como condição essencial de liberdade. Ou seja, para o senso comum, liberdade costuma ser caracterizada como ausência de subordinação, livre exercício da vontade, consumação plena de desejo. Poderia ser livre, portanto, aquele indivíduo capaz de gozar de tudo aquilo que lhe apetece: deslocamento, vontade e desejo.

Partindo deste pressuposto, somos livres quando, entre as gôndolas dos supermercados, escolhemos o sabão em pó. Quando somos autônomos para escolher determinada escola para os filhos, o parceiro amoroso para a vida, quando escolhemos a profissão sem interferência alheia, quando podemos votar neste ou naquele partido. Somos livres quando checamos a conta bancária e sem ressalvas podemos comprar uma passagem para o destino sonhado, quando não há limitações financeiras para a aquisição de um bem material, nem limitação afetiva ou social para o exercício do arbítrio.

Contudo, será mesmo que, conforme significamos, o exercício autônomo da vontade nos confere o poder de ser livres? Se sim, será nossa vontade, de fato, autônoma? De onde surgem nossas vontades? Satisfazê-las nos mantém livres ou nos condiciona a escravos?

Vejamos.

Para o filósofo francês, Jean-Paul Sartre, “estamos condenados a ser livres”. Em linhas gerais (e sem pretensão de definir aqui a complexa filosofia existencialista de Sartre), o homem é liberdade e por ser liberdade, está condenado a ter que fazer escolhas. Eis a condição humana: estar condenado à liberdade de ter que escolher. Sob este prisma, poderíamos considerar que um detento, vendo o movimento do mundo por sob as grades da prisão e sem permissão de escolher, é um pouco mais livre do que aquele que é convencido de sua pretensa liberdade ao poder satisfazer suas vontades, por ser possível, a este, eleger a marca do sabão e o destino da viagem – ambos são livres, mas o detento é menos condenado à angústia de ter que escolher.

Além disso, é necessário que analisemos o fato de que cada desejo que nasce, nasce por uma construção mais complexa do que o simples querer – que nada tem de autônomo. Estamos o tempo todo acorrentados à mercantilização dos nossos afetos, à manipulação pela publicidade do nosso desejo, aos impulsos mais primitivos e biológicos da nossa natureza, a mecanismos de coerção política e cultural.

Neste esteio, pode-se concluir que liberdade é fazer escolhas em busca de satisfação e que então sim, podemos ser livres, apesar de essa liberdade ser também a nossa condenação. E que a liberdade pressupõe fazer escolhas, mas que estas nada têm de autônomas, já que são ajambradas socialmente por diversas tramas, que mistificam o poder do indivíduo, levando-o a acreditar na pretensa liberdade do seu arbítrio pelas escolhas que precisa fazer – quando as opções e os próprios caminhos, no mais das vezes, já são previamente impostos.

Por esta razão, a liberdade possível requer grande responsabilidade. Não se trata de atender simplesmente às demandas dos desejos, pois isso é manter-se cativo. Não é apenas arrogar-se do poder de escolha, mas questionar a origem de cada uma das nossas vontades, a construção política e social do querer.

Para isso, a razão é o artifício de questionamento que permite realizar escolhas e satisfazer desejos, sem, contudo, acostumar-se à prisão do esvair-se em consumo material e afetivo. O atrelamento do desejo ao exercício intelectual, permite freios ao desejo caótico, sem castração da individualidade. É preciso, assim, refletir sobre cada possibilidade de escolha, emancipar-se pelo conhecimento, fugir da ignorância e da preguiça que nos impele a escolhas pré-determinadas, caminhos já estabelecidos e vontades forjadas. Com isso, podemos ser livres, desde que a sensatez recorde o tempo inteiro que vontade autossuficiente é uma ilusão e que por isso, a satisfação do desejo deve ser comedida com a reflexão racional sobre sua origem e consequência – afinal, se estamos condenados à liberdade, que seja da maneira mais autônoma possível.

Natachy Petrini